Terça-feira, 7 de Julho de 2009

Votação

Votação aberta até o dia 10.

O Fábio teve problemas com uma viagem e, devido a complicações, não conseguiu postar. Pedimos desculpas aos leitores.

Espelho da mente




Eu

odeio

ela.



Entendeu, não é? Eu a odeio e não consigo mais agüentar a sua presença. Já fui indiferente. Já tolerei. Já me incomodei um pouco. Já suportei calado. Agora não quero mais ficar me escondendo.

Tudo nela me repudia. Sua fala, sua risada, sua presença, o modo como arreganha os dentes no sorriso... Não posso seguir por perto, porque me irrito com tudo o que ela faz. E o olhar? Ah, aquele maldito olhar! Como eu posso agüentar aquela zombaria disfarçada? Aquele ar de desafio e superioridade reprimido? Aquele brilho... Aquele azul cristalino...

Não!



Eu

odeio

ela!



Sim, eu a odeio e não há nada no mundo que possa mudar isso. A culpa não é minha. Não há nada que eu possa fazer a respeito. Odeio por tudo o que ela me fez passar. Pelo que me fez sofrer. Odeio! Tudo o que ela fez para mim.

Nada. Sim, exatamente nada! Odeio ela ter ignorado. Odeio ela ter desprezado. Silenciosamente, propositadamente! Odeio ela ter sentido pena. Odeio ela ter se condoído. Odeio ela ter se importado! Odeio ela gostar de mim... Odeio ela me amar... FINGIR me amar... não do modo... como eu...

EU

ODEIO

ELA!



Eu a odeio, pois não poderia sentir nada diferente. Toda vez que a vejo começo a pensar, pensar, pensar... e odiar, odiar, odiar! Eu quero que ela se dane, que erre e se machuque, que tenha uma alma cheia de feridas e cicatrizes. Que ela escolha o caminho que quiser. Que faça as escolhas idiotas que achar melhor. E sofra por isso. Sofra e chore! Deixe-a sofrer. Eu não me importo com ela. Não me importo. Para mim ela está morta.

Mas não consigo parar de pensar, e isso me faz odiar mais ainda! Pois toda a vez que eu penso, é com ódio. Ódio por tudo aquilo que ela representa, pelo que ela fez ao seguir sua vida estúpida do modo com seguiu. Tomara que siga para o inferno de uma vez por todas!

Odeio ela, com todo o ódio que meu coração possa conter. Mas sou obrigado a ter ela sempre por perto. Pois ela sempre está nos lugares onde eu vou, nos momentos em que estou. Quando saio, quando vago, é ela quem sempre esbarra comigo, vinda do nada. É ela quem está na sacada do apartamento, quando tento passar às pressas pela rua. Quando disco um telefone qualquer, é ela quem atende. E, como se não bastasse toda a insônia que o ódio já me causa, quando fecho os olhos, é ela quem vem assombrar meus pesadelos! Ela não me deixa descansar, não me deixa ser feliz, arruína tudo em minha vida. Ela que gera esse insano ódio, como um monstro, um parasita, um vampiro de almas que merece ser empalado pelo coração, sofrendo mil eternidades de agonia por cada segundo da minha desgraça!

POR

TUDO

ISSO

EU















EU















eu





















amo













ela











eu












amo











ela

























E não há nada que eu possa fazer a respeito...

Segunda-feira, 6 de Julho de 2009

Um prato frio

Calculista ele era. Já havia planejado a vingança pelo menos umas trinta vezes na ponta do lápis. Preto no branco. Tudo de papel passado. Faltava-lhe um pouco de frieza, mas se aos 63 anos ainda não tinha desenvolvido, dificilmente conseguiria. Costumavam dizer que vingança é um prato que se come frio, mas esperar meio século é tempo para apodrecer a comida. Prato, talheres e até a mesa já deviam estar embolorados. Era treze de outubro. A mesma data em que sua vida havia sido completamente destruída. Um fim trágico para uma criança que tinha tudo para ser um homem de sucesso.

Naquele dia pegou todas suas anotações de planos diabólicos para acabar, de uma vez por todas, com seu algoz. Entre as centenas de pequenos papéis razurados, um o chamou atenção. Era justamente este que ele colocaria em prática. Aos 63 anos já não tinha mais um preparo físico invejável. Os músculos já davam sinais de atrofia e os dedos começavam a enrugar. Mesmo assim era aquele o plano que ele pretendia colocar em prática. Tirou do fundo de seu closet um arco e duas flexas, camisa preta, calça preta e um par de botas sete léguas. Passou pela sala e sacou da gaveta de um pequeno aparador um par de luvas da mesma cor das demais vestes e desceu as escadas com certa dificuldade. Entrou em seu Corcel e saiu em direção ao asilo onde o inimigo o esperava há anos.

Chegando lá, estava certo de não conseguiria pular as grandes muralhas que faziam do asilo uma prisão, mas tinha certeza de que sua astúcia o levaria ao encontro de quem procurava. Com muito esforço arremessou o arco e as flechas para o outro lado do muro, caminhando em direção à portaria do asilo.

- Bom dia, senhor. Em que posso ajudá-lo? - O jovem recepcionista se impressionou com as vestes daquele senhor, mas quem era ele para julgar um ancião que buscava uma casa asilar por conta própria?
- Estou procurando um local para ficar. Minha família está muito atarefada e já não tenho mais idade pra ficar em casa sozinho.
- Certo. É para isso que estamos aqui. Qual a sua idade?
- Sessenta e três e meio.
- O senhor consegue ler e escrever?
- Sim, claro.
- Então assine estes papéis e já o levo para conhecer seu novo lar.

Tremendo como há muito não tremia, assinou todos os papéis. Nem fez questão de ler, pois sabia que em poucas horas estaria saindo por aquela mesma porta, carregado por policiais rumo a outro tipo de asilo um pouco mais sujo e conturbado, mas nem por isso pior do que aquele. Foi orientado pelo rapaz da portaria que subisse a rampa até o primeiro andar para conhecer a área coletiva do local. Lá, observava atentamente à movimentação de seus novos colegas de residência, a fim de saber como chegar ao seu objetivo em poucas horas.

Sua memória recente já estava ligeiramente abalada por algum tipo de doença degenerativa, por isso, carregava consigo as anotações de como faria aquele premeditado assassinado. A vingança que sonhou a cada dia de sua vida desde os treze anos de idade. Só agora, quando não devia mais nada a ninguém, ele teria coragem de realizar seu grande sonho. Retirou os pequenos papéis do bolso e se pôs a ler linha por linha, já acalmado por ter entrado onde precisava. Andou até o piso inferior e pegou sua arma, que ele já não lembraria onde estava não fosse pelas anotações prévias. Se algo saísse fora do previsto, talvez sua memória lhe pregasse uma peça, mas até então tudo estava nos conformes.

Várias horas se passaram e ele nem sequer sentia o tempo. Sentou-se à mesa para o jantar ainda vestido com suas roupas todas pretas. Não tirou a luva nem para comer a sopa que lhe serviram. Foi quando avistou seu irmão mais velho no outro lado do recinto. Entrando vagarosamente com auxílio de um andador, o homem demonstrava uma bela aparência, apesar de frágil. Era a imagem que faltava para despertar a fúria daquele senhor vingativo de sessenta e três anos. Ele se levantou tão rápido quanto podia e fugiu na direção contrária à do irmão rumo ao andar dos quartos. Com arco e flecha já em mãos, entrou no quarto de seu irmão e pôs-se a esperar o momento certo de entrar em cena. A mira já estava na direção da porta quando ouviu o barulho da maçaneta a girar. Sua respiração era ofegante só de imaginar a flecha atravessando o pescoço daquele ser de existência tão abominável. Eis que a porta se abre. O irmão mais velho entra no quarto e com a visão turva percebe a presença de alguém. O mais novo hesita em atirar. O mais velho caminha mais rumo à cama onde escorava-se o mais novo. O mais novo enche os olhos de lágrimas e suas mãos tremem. O mais velho o reconhece, vê o arco e a flecha parados em sua direção, cai e se contorce no chão. O mais novo sai lentamente sem ver uma única gota de sangue. O mais velho agoniza.

A moça do forró

Eu tava só voltando da bodega lá, moço. Tava quase escuro, de quando é quase dia mas na verdade ainda não tinha amenhecido. Eu só consegui ouvir um grito de uma moça. Era tudo um breu e eu não via nadica de nada. Quando cheguei perto era a moça do forró. A Irene que não me escute, mas a moça tava com uma saia curtinha, seu delegado... Tinha uma pernas, que deixou todo mundo lá da bodega do Tonho de cabelo em pé. E o seu delegado sabe bem como é isso, né? Mulher é um bicho tinhoso.

Daí eu cheguei perto pra acudir a moça e pedi o que tinha acontecido que o joelho dela tava todo cheio de sangue. Ela nem conseguia falar, homi. Só chorava a pobrezinha. Só deu tempo de pegar ela no colo e colocar no carro. Na hora eu nem pensei que eu tava botando as mão nas perna que todo mundo queria encostar, sabe. Nem tirei lasquinha. Fiquei preocupado, mesmo.

No meio do caminho a moça começou a gritar, desesperada. Disse pra parar, que ela queria descer. Eu fui pro acostamento e ela abriu a porta e saiu correndo como deu. Meio manca, a pobrinha. Eu só via a saia balançando contra a luz dos carro na estrada – eu disse que ainda tava amanhecendo, né, seu delegado? Eu fui atrás.

Quando eu consegui pegar ela pelo braço, ela olhou bem pra minha cara e se pendurou no meu pescoço, moço. Mas eu não fiz nada, não. Desaguou. Eu fui tentar acalmar a moça e ela me disse que tinham tentado matar ela – tão formosa e tão desesperada a moça. Aí eu não sabia o que fazer, né, seu delegado?! Essas coisas a gente nunca sabe como agir.

Pedi pra moça sentar no chão e me contar tim-tim-por-tim-tim-tim o que tinha acontecido e ela pegou minha mão e fez eu apalpar a cabeça dela. Um galo, seu delegado, um galo que eu tive certeza que cabra-macho não agüentava. E daí ela disse que tava saindo do forró com o Tonho, o dono da bodega. E eu bem que estranhei que ele tinha saído cedo. E daí chegou o filho do Tonho, o Zé, tirou o pai do braço dela e deu com um pau na cabeça dela.

E a pobrinha, coitadinha, tentou sair correndo mas não conseguiu. Eu disse que devia ser porque o seu Tonho era casado com a mãe do Zé e ele deve ter ficado brabo, mas aí ela caiu no choro mais ainda, não conseguia parar de soluçar. Foi aí que ela tentou dizer que tinha namorado o Zé. Eu não contive o queixo, seu delegado. O Zé é barra-pesada. Até tampei as perna da moça. Não queria confusão sabe, moço.

Aí ela disse que ficou uns par de tempo sem lembrar de nada quando eles vieram de novo com um saco e tentaram botar ela drento ela acordou e berrou. Daí que eu ouvi. Eu só não entendi, seu delegado, porque eles cascaram fora quando me viram chegar. Eu sou forte, sabe, carrego peixe e barco todo dia. Mas os dois são umas montanha. De certo ficaram com medo que eu contasse pra Dona Ivone, que é irmã da Irene.

É isso, seu delegado. É isso que eu sei. Só isso. E eu juro pro Senhor como falo a verdade. O que? Ela disse que fui eu quem deu com uma peixeira na cabeça dela? Vagabunda! Filha da mãe! Não, seu delegado, eu juro que não fui eu. Foi o Tonho. Eu vi o Tonho correndo. Lá no começo eu disse que não, mas eu vi, seu delegado. Foi o Tonho. Foi o Tonho. Eu vi o saco preto, seu delegado.

Domingo, 5 de Julho de 2009

Ao Diretor Geral

Não era, em nada, similar a um filme americano. Não havia a luz pendente, não havia o good-cop-bad-cop, não havia espelhos falsos na parede. Não havia, na verdade, parede. Na capoeira baixa e seca, pouco se via além do local iluminado pelos faróis. No contraluz uma silhueta insistia:

― Melhor ir falando. Isso pode levar a noite a toda e não tenho a menor pressa de ir pra depê. O café de lá é uma bosta, mesmo.

No chão, um outro vulto encolhido no capim seco. As mãos atrás das costas. De longe, nem seria visto. Àquela hora, de qualquer forma, não havia ninguém para ver coisa alguma. E o vulto sabia disso.

― Eu já disse, só fiz o que ele pediu. Foi o que disse o vulto. Que outra coisa não era, naquela situação, o sujeito. Apenas um vulto.

― Olha ― continuou a silhueta no contraluz ― eu não tô na minha hora de serviço, não tô de uniforme. Não tem nenhuma regra que eu tenho que seguir. Se você falar, você volta comigo, num pedaço só, inteirinho. Peixe pequeno assim, se se comportar, em um ano, dois, tá fora. Eu até dou um jeito de ajeitar o seu lado lá dentro, pra ficar sossegado. Agora, se me enrolar, eu tenho um saco preto no porta-malas que é o seu número. E daí você nem vai sentir o cheiro da porra do café da depê. Ca-dê-a-mer-da-da-gra-na?

― Eu não peguei nada. Só o que o velho me pagou. Como eu ia saber que a caixa era pra ele?

― Tá me achando com cara de otário? ― A silhueta no contraluz parecia perder um pouco da paciência. ― Você quer que eu acredite que o velho pagou pra acabar com ele mesmo? Você apagou o infeliz pra roubar alguma coisa. Se não era dinheiro era o quê?

― Não roubei nada, não. Numa dessas ele queria se matar e só não tinha coragem pra puxar o gatilho.

― Não, não, não. Eu conheço esse tipo de gente. Fresco e com grana assim, se ele fosse se matar ia tomar um punhado de comprimido com uísque num copo de cristal. Esse tipo nem gosta muito da idéia de uma arma, que é pra não estragar o enterro. Imagina receber uma carta bomba na cara. Caralho, a cabeça do velho tava do avesso! Os braços cortados no cotovelo. As mãos não deu nem pra achar. Gente assim nunca ia arrumar uma dessas pra se matar. Suicídio não cola. Você me diz onde tá a grana, eu pego – até deixo um pouco com você, se você cooperar – e a gente faz a prisão na boa. A hora que você sair, ainda vai ter uma grana te esperando.

― Mas eu já disse, eu mandei a caixa do jeitinho que ele pediu. E foi só. Não roubei nada, não. Não sei de dinheiro nenhum. Só tenho o que ele me pagou pra enviar a caixa.

― Tá certo, você não quer dizer, tudo bem. Já vi que não adianta insistir.

A silhueta no contraluz puxou o vulto do chão, deitou-o com o peito sobre o capô do carro, soltou-lhe das algemas, conferindo se não havia deixado nenhuma marca no pulso.

― Vaza. E fica sabendo que eu tô de olho. Se tu aparecer com alguma grana, eu vou ficar sabendo. Vaza. Corre!

Um vulto partindo, correndo na capoeira, tendo às costas a luz dos faróis de um carro solitário, uma silhueta com um trinta e oito apontado e duas balas. No contraluz, o cano curto fumegava. O corpo, entre o capim seco da capoeira, mais adiante, também. A silhueta saiu da frente do carro, abriu a porta, passou uma chamada pelo rádio acusando uma perseguição ao suspeito. Alguns minutos depois, uma nova chamava pedia uma ambulância. O fugitivo tinha sido alvejado.

― Esse café é uma bosta, hein?
― Não muda nunca. Você devia estar acostumado.
― E aí, alguma novidade da tal caixa?
― Esperando a perícia, ainda.
― Pra mim tá na cara que alguém mandou a bomba pro cidadão pra sair com alguma grana. Grana graúda.
― Sei lá. Tá muito estranho. Mas pode ser. O cara acaba de ganhar uma promoção, vira diretor geral, tá com a grana, alguém fica sabendo e resolve explodir com ele.
― Acho que sim.
― Cara, não fazia nem um mês que o infeliz tinha assumido o cargo.
― Nem deu tempo de aproveitar o dinheiro que tava ganhando.
― Pode dizer o que quiser, mas esse é um cargo que eu não queria ter. O cara que tava no cargo antes foi preso com um desvio de verba animal. E isso porque acabou não pagando o imposto de renda, senão ninguém ia descobrir. Aí vem esse velho, assume o lugar de uma hora pra outra, e recebe uma carta bomba de presente. Prefiro ficar aqui com esse café de bosta e manter a minha cabeça em cima do corpo.
― Mas e aí, chegou a ver a caixa antes de ir pra perícia?
― Pouca coisa. Normal. Toda parda, selo do correio, confidencial escrito na tampa, logo abaixo do nome do cargo. “A/C: Diretor Geral”. Tudo digitado na máquina, nenhuma caligrafia.
― Mas a perícia já não adiantou que as digitais bateram?
― Já, já. Parece que foi o cara que você pegou mesmo. Pena que não deu pra pegar o sujeito. Se espremesse ele, devia dar pra descobrir o que aconteceu, ou porque ele mandou a carta.
― Pode ser, pode ser.

Perto da capoeira, numa casa silenciosa, outra unidade de investigação fazia uma varredura na casa do principal suspeito de ter enviado a caixa. Mesmo à luz do dia, distante, era impossível ver a poça de sangue entre o capim seco lá fora. Do lado de dentro, sob a cama, numa sacola de lixo, uma pilha de dinheiro, separada em notas de cem e cinqüenta. Notas sequenciais, descuidadas. Coisa de amador. O investigador encarregado avaliou por cima algo em torno de uns cinco mil reais. Com uma margem de erro para mais ou para menos, caso algo sumisse ou passasse despercebido. Embaixo de uma imagem de Nossa Senhora Aparecida, na estante da sala, um pedaço de jornal rasgado que tinha, na margem, uma nota escrita à mão, com o endereço da empresa e instruções para o envio de uma encomenda ao Diretor Geral, em uma caixa confidencial, para garantir que não parasse na secretária. A digital, dificilmente poderia ser comparada com algum suspeito, visto que os dedos que ali se encaixavam haviam desaparecido sob uma explosão. No canto do jornal, um pedaço de foto de matéria desatualizada e a data de pouco mais de um mês atrás.

Quarta-feira, 1 de Julho de 2009

Novo Tema

O novo tema da rodada será: "Um assassinato que não deu certo".
(Este será também o marcador)

Os textos devem ser postados até o dia 06/07/2009.

Sexta-feira, 26 de Junho de 2009

Votação

Com todos os textos postados, está aberta a votação para essa rodada. Você pode participar e votar até o dia 30.

E devido ao seu bom relacionando com o comércio de sua cidade, você foi selecionado para estar recebendo esta oferta especial: aproveite e assine o RSS do Duelo de Escritores. Você vai poder estar recebendo os textos no momento da postagem e poderá estar acompanhando mais de perto cada rodada. O Duelo de Escritores agradece a sua atenção e deseja uma boa noite.

Amanhã é sábado

Despertou com o roçar familiar da barba no rosto. Sorriu sonolenta para o marido que acabava de chegar, ainda com o uniforme da tinturaria. Espreguiçou-se para espantar os restos de sono que lhe pendiam pelo corpo e foi preparar o cafeceia enquanto Francisco tomava o seu banho. Comeram devagar. Ela o café com leite e pão com manteiga. Ele, o macarrão requentado com suco de caixinha. Terminaram a refeição e conversaram mais alguns minutos até chegar a hora de Valquíria sair. Despediram-se com um beijo e ele foi lavar a louça e recolocar o telefone na tomada antes de dormir. Ela foi ao ponto esperar pelo ônibus e pelo dia que começava.

Pendurou o casaco leve no encosto da cadeira do seu pequeno cubículo acinzentado e, enquanto aguardava o computador ligar, ajeitou os portarretratos com as fotos do marido e dos dois sobrinhos. Na sua pauta para o dia, nenhuma novidade. Os mesmos produtos da mesma empresa, o mesmo script a ser seguido. Aguardou pouco até o telefone tocar com algum cliente insatisfeito e pouco educado do outro lado. Histórias parecidas, todas elas, como as suas respostas pré-programadas. Os ponteiros, sobre os cubículos, fizeram o que fazem os ponteiros em todos os lugares. Giram sem sair do lugar. Correndo atrás do próprio rabo, do tempo perdido, até que se esvaiam as baterias ou se cansem os pêndulos, daqueles que inda hoje se valem destes tão antiquados recursos. Ao fim do dia, lá estavam ainda os ponteiros, correndo atrás ou fugindo sabe-se lá do que. Valquíria pôde ao menos cobrir os ombros doloridos com o calor do casaco e pôr as orelhas quentes ao vento frio do fim de tarde. Deixou os ponteiros e cubículos para trás, que estes nunca iam a lugar algum, e pôs-se de volta para casa, ainda ouvindo os telefones chamando dentro da cabeça, como um tic-tac baixinho que se ouve sem perceber. Antes de ir para casa, parou na padaria. Aguardando no balcão, quase atendeu, por impulso, o telefone que tocou. Pagou e saiu balançando a sacola pela calçada.

Chegou em casa sem fazer barulho. Retirou o telefone da tomada, fez a limpeza ainda em silêncio, e só depois acordou o marido com um beijo no rosto barbado. Preparou o cafeceia com a broa de fim de dia que ele tanto gostava, acompanhada por uma xícara de café preto. Para ela, preparou uma salada e um sanduíche. Retornou ao quarto para chamar o marido e viu-o terminando de se arrumar. Escondeu-se no batente da porta e estendeu a perna quarto adentro, tentando imitar a cena de algum filme que tinha visto na algum dia na TV. Ouviu a risada de Francisco e espiou risonha pela porta. Tentou colocar um olhar lascivo fingido no rosto quando disse “Não demora no trabalho, viu? Que amanhã é sábado”. Ele riu mais uma vez, foi até ela já uniformizado, e deu-lhe um beijo de barba mal feita com cheiro de hortelã. Foram até a cozinha, conversaram um pouco durante a refeição e ela lavou a louça antes de dormir. Ele foi para a fábrica mais feliz. Quando voltasse e acordasse Valquíria, já seria sábado.

As Regras

- Boa noite, senhor Rasmussen. Somos da Corporação Harper. Disponibilizamos serviços de transmissão televisiva, decoração digital, jogos virtuais e serviços eletrônicos e de comunicação em geral. Gostaria de solicitar informações sobre algum produto específico?

- Não.

- Muito obrigado.

Valquíria desligou o fone e o programa emitiu o comando para uma nova ligação. Em segundos um novo contato foi feito. Nova negação. Nova tentativa. A sua média de Aceites Prévios era de um em trinta e sete, o que significava que a cada trinta e um minutos ela embarcava em um diálogo mais prolongado com um cliente interessado. Enquanto isso, ela fazia as Propostas Introdutórias Padrão de modo quase automático. Sempre a mesma fala curta e neutra. As Regras não permitiam métodos mais coercivos.

Deixando as tarefas sendo executadas por uma parte do seu cérebro, de modo semelhante ao do computador em sua frente, sobrava espaço para a mente divagar dentro do seu pequeno cubículo no Salão de Comunicações com o Cliente.

Estava chegando perto. Faltava exatamente dois anos para a sua Checagem Periódica de Longevidade. Era um momento delicado na vida de qualquer um. Em particular, a checagem dos quarenta. Era quando começava a surgir uma maior taxa de Certidões de Longevidade Definitivas. Ao vinte e aos trinta, ainda era raro ocorrer, pois a maioria das inviabilidades eram detectadas muito antes disso, e as estimativas de longo prazo eram imprecisas demais para serem levadas a sério.

Mas, com a chegada do momento, até as imprecisões começavam a assustar. Ela, em particular, tinha recebido uma predição de 14% de chances de inviabilidade antes dos cinquenta anos. Um em sete não era uma chance tão preocupante, mas ela tinha apenas dois anos antes da nova checagem. Quem sabe não seria daí que receberia sua declaração de que, em um certo período de anos, ela possuía uma chance maior que 95% de se tornar mais dispendiosa do que funcional para a Sociedade.

Normalmente, isso não preocuparia a ninguém. Colegas e parentes falariam que dois anos não era um tempo curto, ainda mais que dificilmente a Certidão de Longevidade Definitiva lhe daria menos que cinco anos. E sempre era possível recorrer, embora fosse necessário um argumento incomum para tanto. Nada que sua leve Tendência à Depressão e Risco de Doença Intrínseca justificasse.

Mas, para Valquíria, um profundo incômodo a fazia se sentir de outra forma. Algo para o qual dois, ou mesmo dez anos, era muito pouco.

- Sim, eu estou interessada em Quadros Eletrônicos de Partículas.

Sua mente viajante rapidamente voltou ao cubículo e se concentrou no Aceite Prévio.

- Sim, senhora. Os nossos quadros de elétrons possuem quinhentas opções de padrão regular e caótico, além de sessenta mil opções de cores. Há dez opções de dimensões. Gostaria de checá-las?

- Sim.

A atendente enviou os arquivos para a possível cliente, dando-lhe seu Tempo Limite de oito minutos para escolher. Como a cliente não se decidiu, ela desligou e voltou às tentativas. E às divagações.

As mesmas tendências que tinham colocado sua longevidade em xeque tinham desqualificado-a para a reprodução. Segundo as Regras, mesmo o seu direito individual de um filho (que ela pretendia alocar com seu Companheiro Estável atual) era negado. Sim, ela sabia que era melhor para a Sociedade que a sua vaga fosse alocada para uma mulher com uma Constituição Ontogenética mais favorável. Mas alguma coisa sobre isso a deixava incomodada. Sensação que crescia quando Francisco interagia com seu filho já nascido, alocado com uma Companheira Ocasional.

Os minutos se passavam e os pensamentos continuavam a revolver em sua mente, indo e voltando de temas mais banais àqueles que mais a incomodavam. Não era possível escapar deles. Se ela tivesse efetivamente apenas mais sete anos, não adiantaria, de qualquer modo, ter um filho. Porém, as mesmas regras que negavam a sua reprodução eram as que ditavam sua longevidade. Afinal, eram as Regras. E, todos sabiam, sem Regras, não havia Sociedade. Só o Mundo Paralelo e seus caóticos perigos, e quem desejaria...

Foi subitamente interrompida pelo Alerta de Produtividade. Ela estava há quarenta e seis minutos e meio sem um Aceite Prévio. Olhou rapidamente os indicativos do computador, buscando a causa. Ela estava modulando de modo errado a voz e falando excessivamente rápido. Pensar sobre aquele assunto estava claramente desestabilizando-a. Tentou se focar novamente, mas após dez tentativas o Alerta soou de novo. Não tinha dúvidas: ela estava ficando irritada de um modo não-usual, e cada vez mais, conforme o Alerta lhe avisava. Na tentativa seguinte, foi a gota d'água: o Alerta soou imediatamente e em um nível mais alto, quando ela soltou um pequeno suspiro durante sua Proposta Introdutória. Aquilo foi o bastante. Ela arrancou os fones e saiu apressada do cubículo, sem ligar para o Alerta que se colocava em nível máximo.

Passou pelos corredores escuros de portas fechadas, dirigindo-se para o Terminal de Transporte. Estava vazio e sem guichês ocupados, como o esperado, pois não era o fim do Horário de Expediente. Então não havia nenhum Veículo Transportador disponível. Mas ela sabia, como poucos, que era possível abrir as portas mesmo nos outros horários. Bastava fazer algo próximo do inimaginável: esgueirar-se por um guichê e apertar o código que ela, de modo indulgente e quase despercebido, observava os funcionários inserirem no computador, durante as transações. Valquíria estava trêmula ao ativar o computador e inserir os caracteres. Desconectada de seu padrão mental usual, não racionalizava os seus atos. Apenas sabia que não queria ficar ali, e que em poucos minutos alguém estaria abordando-a para colocá-la sob controle.

A porta de um setor do Terminal se abriu e Valquíria escapou do guichê, correndo em sua direção. Porém, quando se encontrou diante da abertura, seu ímpeto vacilou.

Diante dela, não se encontrava o interior conhecido e confortável do Veículo Transportador. A porta se abria para uma intensa escuridão, na qual mal pode distinguir os contornos dos gigantescos edifícios que ladeavam a Corporação Harper. O próprio ar, frio e fedorento, atingia seu rosto como um soco. Olhando para cima, por paredes desprovidas de janelas, ela enxergava a luz do dia, a algumas centenas de metros, penetrando pelo estreito espaço que se abria entre os prédios. O fato dela não conseguir dizer a distância com exatidão a incomodou profundamente. Aquele era o Mundo Paralelo, desvinculado da Sociedade e das Regras, onde reinava a imprecisão, o caos e o desconhecido.

E ali ela estava, congelada na beira do abismo entre dois mundos. Como em nenhum outro momento, percebeu como era fina a separação que lhe protegia do perigo: nada mais que uma película metálica em forma de porta. Ao coquetel de neurotransmissores e hormônios que a embriagava, juntou-se uma nova carga de adrenalina, gerada por mais emoções raras. Surpresa. Medo. E excitação.

Quando o Guarda entrou no Terminal, atendendo a uma solicitação de Desvio de Conduta, a porta estava fechada, e o Mundo Paralelo novamente lacrado por detrás de seu metal opaco. Os guichês continuavam vazios. Assim como o grande Salão de Embarque. Deserto, como o esperado, para o Horário de Expediente.

A GOTA D'IOGURTE

Vinte e três horas. Valquíria se preparava para ir trabalhar. No alto de seus trinta e oito anos, o reflexo no espelho já demonstrava sinais de envelhecimento por causa do estresse que sofria no trabalho e em casa. Mas ela era uma guerreira. Maquiava-se e seguia, dia após dia para sua rotina massacrante.

Francisco, seu marido, acordou no meio da madrugada. Levantou-se e caminhou vagarosamente até a cozinha. Abriu a geladeira e pegou um iogurte. Rompeu o lacre e, ainda semiacordado, deu um grande gole naquele líquido rosado. O sabor estava péssimo e isso o fez acordar subitamente.

- Merda de iogurte! - pestanejou.

Olhou a data de validade. Ainda estava longe do vencimento. Caminhou até a sala indignado e não pensou duas vezes antes de discar o número do Serviço de Atendimento ao Cliente, impresso na embalagem do produto.

- Laticínios Brognatti Company, Valquíria, em que posso ajudar?
- Meu iogurte estragou dentro do prazo de validade.
- OK. Como é o seu nome, senhor?
- Francisco.
- Qual o ponto de venda onde o senhor adquiriu o produto, senhor?
- Na padaria do Souza, aqui na esquina. De que adianta saber isso?
- São rotinas da empresa, senhor. O senhor já possui cadastro conosco, senhor Francisco?
- Que droga! Não interessa. Quero saber do meu iogurte. Mandem alguém trazer outro que eu to morrendo de fome.
- Infelizmente não podemos, senhor. O senhor gostaria de se cadastrar para a promoção Viagem da Família Feliz com Laticínios Brognatti, senhor?
- Não! Só quero um iogurte que não esteja estragado. Já falei. Quero o protocolo da minha reclamação.
- Senhor, se eu passar o código do protocolo vou precisar encerrar o atendimento. O senhor tem filhos? Temos uma promoção para crianças men...
- Não, sua chata, minha mulher é estéril. Vou ligar pro SAC dos pais dela também pra ver se funciona melhor que esse!
- Posso ajudá-lo em algo mais, senhor?
- Quero meu protocolo de reclamação. Qual é o seu nome mesmo?
- Valquíria, senhor. Estaremos passando o protocolo em instantes.
- …
- …
- …
- Queira fazer o favor de anotar seu protocolo, senhor Francisco. O protocolo é D, de dado, I, de inverno, V, de verão, O, de ônibus, R, de rato, C, de cachorro, I, de inverno, O, de ônibus. Por favor, não esqueça do acento agudo no primeiro O. A Laticínios Brognatti Company agradece sua ligação e tenha uma boa noite.

Entra uma gravação.

- Por favor, responda nossa pesquisa de satisfação do cliente para nos ajudar a melhorar nosso atendimento. Sua necessidade foi solucionada nesta ligação? Tecle um número entre 1 e 5, onde 1 representa “nada solucionado” e 5 “totalmente solucionado”.

Tu tu tu tu tu tu tu...

Quinta-feira, 25 de Junho de 2009

Dona Valquíria

Dona Valquíria é moça direita. A lâmpada da cozinha da casa dela é a primeira a acender na rua ainda escura. E tem um cheiro de café passado lá perto bem cedinho, que acho que Dona Valquíria acorda mesmo para agradar o seu Chico - tão velhinho o pobre. Logo que ele sai, com o dia já claro, ela começa a limpeza da casa. Ouve umas músicas altas, estende as roupas no varal e fica ainda mais bonita com os pés entre a grama verde de primavera e a terra cor de chocolate.

O cheiro de flor da Dona Valquíria é de se sentir de longe. E quando ela sai vestindo o terninho vermelho, o cabra sempre se pergunta aonde vai a moça bonita, já que no telefone não se sente cheiro nem se vê formosura. Um pecado, dizem, Dona Valquíria casada com o velhote. E ele nem aí, anda de braço dado com ela, que mais parece filha do que esposa.

E ela chega a noitinha, trazendo pão pro Chico. Mas tem um dia, lá pela metade do mês, que ela chega feliz, com um sorriso nos lábios. E vem com pressa, atropelada. E todo mundo fica na espreita. Naquele dia, todas as cortinas da rua ficam com frestas, só esperando ela passar.

Dona Valquíria parece moça de televisão naquela noite. Até as estrelas somem do céu porque sabem que ninguém brilha mais que ela. As flores do perfume parecem impregnadas na saia rodada e o vermelho do uniforme sem graça engraça os lábios de Dona Valquíria. As pernas dela, torneadas, morenas feito chocolate e os seios – que balançam levemente, no ritmo do passo – envoltos por uma blusa colada da cor das folhas na primavera.

Um dia o moço lá da esquina resolveu seguir a Dona Valquíria. Até hoje ninguém conseguiu arrancar dele o que viu e sempre que fala no assunto o desgramado engasga. Chegou até a desmaiar. Outro dia ouvi falar que ela fazia apresentações – subia até no palco, a Dona Valquíria. Disseram que do lado de fora do lugar onde ela entrava, só se ouvia um tun-tun-tun que parecia batida de coração. Tudo conversa a boca pequena.

A única coisa que se sabe é que ela volta ao amanhecer e, no dia seguinte, não se sente o cheiro do café na casa do Seu Chico.

Terça-feira, 23 de Junho de 2009

Gerúndio

- Boa tarde, senhor Valdir. Eu poderia estar conversando com o senhor um momentinho?

Assim começava o dia de Valquíria. Com a voz irritantemente estridente atingindo com força os tímpanos do cidadão ao lado do telefone. Ao mesmo tempo em que ele, invariavelmente, contorcia os músculos do rosto em clara indigestão sonora, ela erguia o canto dos lábios num sorriso sacana.

- Eu gostaria de estar oferecendo ao senhor um novo produto de uma nova promoção que gostaríamos que o senhor estivesse vindo a fazer parte.

Valquíria é uma mulher inteligente, sabe há anos que o gerúndio não se faz necessário. Mas sabe, também, que ele é terrivelmente odiado. E é por isso mesmo que insiste em usar cada sílaba de forma tônica, em um destaque mortal. A resposta, normalmente, é a mesma:

- Não, obrigado. Não tenho interesse.

- Mas senhor, o senhor ainda nem descobriu do que se trata este produto que nós gostaríamos que o senhor estivesse adquirindo. E se for – e olha que é! – uma super promoção irresistível, que o senhor com certeza estaria tendo interesse em adquirir? Imagina só a oportunidade que o senhor estaria deixando de aproveitar, não é mesmo?

- Mesmo assim, não tenho interesse. Tenha um bom dia.

- Mas que falta de educação, meu senhor. Já me despachando assim, dessa forma rude? O senhor nem deixou que eu estivesse lhe dizendo o meu nome e já vai me enxotando que nem cachorro magro?

- Tá bom, me desculpe. Como é seu nome?

- Walquíria Elizabeth das Graças de Jesus. Walquíria com dábliu, Elizabeth com zê e tê agá, e Graças de Jesus normal mesmo, né? Porque nas Graças de Jesus a gente não pode mexer não.

Repetia a cada ligação a mesma frase, puxando uma risada anasalada ao final da explicação. Valquíria de Albuquerque Ferreira e Braga não tinha o nome com “dábliu” e muito menos as Graças de Jesus junto a si, cética que é. Mas isso também era uma ótima ferramenta para manipular o pobre senhor Valdir, ou quem quer que fosse, ao outro lado da linha. Valquíria era sádica, explorava o sofrimento do homem que, angustiado, já deveria estar olhando para o relógio, na outra ponta da ligação.

- Desculpe, Dona Walquíria, mas...

- Walquíria Elizabeth, por favor. Com dábliu e zê, tê e agá, lembra?

- Isso, isso. Dona Walquíria Elizabeth, me desculpe mas não tenho interesse em comprar nada não.

- Mas meu senhor! E quem falou em comprar? Não lhe disse agorinha mesmo que nós gostaríamos é que o senhor estivesse vindo a fazer parte de um seletíssimo grupo de clientes que já estão fazendo bom uso de nosso produto?

- Sim, mas...

- Então, meu senhor, tudo o que o senhor precisa fazer, é confirmar alguns dados para nós estarmos fazendo o seu cadastro junto ao nosso sistema, e o senhor já poderá estar desfrutando de nossos benefícios. O nome do senhor é Valdir Souza da Silva?

- Não, não. É Valdir de Souza Silva.

- Ah, sim. O senhor aguarde um minutinho que eu vou estar atualizando o nosso sistema.

No momento em que a música – uma bossa nova irritantemente calma – começava a tocar, Valquíria afastava o fone do rosto, se reclinava na cadeira e acendia um cigarro. A cada ligação, o mesmo processo. Pegava a caneta tinteiro e marcava suas anotações no formulário de pesquisa que tinha sobre a mesa. Nome, idade, escolaridade, número de filhos, profissão, tempo de permanência na ligação telefônica, grau de irritabilidade. Todos os dados de Valdir descritos detalhadamente no formulário que havia projetado para sua tese de doutorado.

- Senhor Valdir, nosso sistema se encontra temporariamente fora do ar. O senhor poderia estar aguardando mais uns minutinhos na linha enquanto estaremos restabelecendo a nossa conexão com o servidor?

- Olha, não tenho interesse não. Já estou atrasado, pois quando você ligou, eu estava de saída.

- Mas senhor, se o senhor vir a estar desligando o telefone, não vai poder estar vindo a fazer parte do nosso seletíssimo grupo de clientes.

- Não tenho interesse, passar bem.

Valquíria colocava, após cada ligação, o telefone de volta no gancho. Desligava o gravador e anotava os dados. Em cima da mesa, pilhas diversas de papéis demonstravam os resultados de sua pesquisa sobre o grau de irritabilidade dos moradores de uma grande cidade ao telefone. Anotava mais um X no formulário enquanto sorria, ao perceber que mesmo após quatro meses de dezenas de ligações diárias, nenhum entrevistado sequer perguntara qual era o produto em questão.

Domingo, 21 de Junho de 2009

Tema - Valquíria

Opa, tricampeonato merece um tema especial.

Nessa rodada, vamos a uma proposta um pouco diferente. Agradecimentos ao Félix pela discussão do tema por MSN agora a pouco.

A idéia é postar um texto que tenha como personagem principal a Valquíria. Ela é uma mulher de 38 anos, que trabalha como operadora de telemarketing, é casada com o Francisco e não pode ter filhos.

Vamos lá. Textos postados até 26 de junho.

(O marcador da rodada é Valquíria.)

Quarta-feira, 17 de Junho de 2009

Votação

Está aberta a votação até o dia 20 de junho.

Lembramos sempre que todos podem votar no seu preferido.

Tapete

Não era mingau.

Imaculado

O celular tocou de manhã. Atendi: “Marco”. “Beth”, ela respondeu, tentando imitar o meu tom sério. Grunhi um “oi, amor”; ela riu um “te acordei?”. Confirmei o horário de chegada do vôo; ela me pegaria no aeroporto. Confirmei que tinha fechado a venda e avisei que depois tinha dado um porre nos chineses para comemorar. Ela me perguntou num ciúme fingido se eu tinha certeza que não tinha nenhuma chinesa. Não tinha. Só chineses velhos bêbados. As meninas eram todas brasileiras. Inclusive a baianinha pendurada no meu pescoço. “Sabe o que fica melhor no pescoço de um executivo do que uma gravata italiana? Uma baiana!” Foi o que eu disse aos chineses. E ele fizeram questão de me empurrar uma das meninas. Claro que não disse nada disso à Beth. Até porque não tinha acontecido nada demais. Era tudo parte do negócio com os chinas, afinal.

Desliguei o telefone, conferi os papéis assinados na mesa perto da cama, abri as cortinas e fui tomar um banho. Foi só quando limpei o espelho embaçado que vi a confusão em que tinha me metido. A filha da puta tinha me deixado com um chupão no pescoço. A Beth iria me matar. Ainda tentei passar água fria para ver se diminuía o roxo, mas não adiantou muito. Lembrei que um amigo tinha me dito, há muito tempo, que passar um pente com álcool resolveria o problema. Vendo a hora do meu vôo chegar e sem uma garrafa de álcool por perto, apelei pro minibar. No nicho de madeira na parede acima do frigobar as várias garrafinhas coloridas estavam perfiladas. Miniaturas perfeitas das garrafas originais. Comecei a selecionar. Campari me deixaria ainda mais vermelho, estava fora de cogitação. Isso me deixou mais inclinado entre a garrafinha de Jack Daniel’s e a de Absolut. Se a idéia era tirar a mancha, que fosse com a incolor. Baiana filha da puta. Eu nunca tinha comprado uma garrafa de Absolut na vida e agora estava esvaziando uma em cima de um pente de plástico com logotipo de hotel. Passei um pouco da bebida ainda sobre a mancha para ajudar e esfreguei o pente até o meu pescoço ficar todo vermelho. Esperei um pouco e repeti a operação. Nada. O chupão continuava lá. E o horário do meu vôo chegando. Teria que resolver o problema no caminho.

Guardei os papéis, peguei minhas malas e desci pro saguão onde já tinha mandado chamar um táxi. As pessoas olhavam o meu pescoço como se vissem uma ilustração do Kama Sutra. E o cheiro de bebida no meu colarinho também não ajudava muito. O funcionário do hotel abriu a porta do táxi e, com um sorriso sacana na cara, disse: “Seu taxi, senhor. Espero que tenha gostado da sua estada”. Filho de uma égua manca. Fez piadinha, se fodeu. Ficou sem gorjeta. O táxi me deixou no aeroporto, sem piadas dessa vez. Devia precisar da gorjeta.

No espelho do banheiro do aeroporto, conferi o roxo da baiana no meu pescoço. O cara que saiu do mictório disfarçou o olhar enquanto lavava as mãos. Mas antes de sair fez questão de ajeitar o colarinho da camisa, só de sacanagem. Mas não é que o puto, acabou me dando uma idéia? Passei numa das lojas do aeroporto e comprei uma camisa de gola alta. Troquei de roupa na loja mesmo e já saí com a gola escondendo mais da metade do meu pescoço e a mancha da baiana.

O vôo foi tranqüilo e, quando desci no aeroporto, Beth estava à minha espera. “Nossa, tudo isso é frio?”, ela estranhou. “Pois é, aquela garoa infernal de São Paulo”. Ela pareceu engolir a história. Fomos para o apartamento dela.

Deixei as malas num canto, ajeitei as coisas, ela perguntou se eu não queria tomar um banho. Disse que deixaria pra mais tarde. Ela não pareceu se importar e se pendurou em meu pescoço, me dando um beijo ao pé da orelha. Disse que tinha um presente de boas vindas, enquanto corria as mãos por baixo da minha camisa. Eu dei uma desculpa esfarrapada, dizendo que não me sentia bem, talvez tivesse febre, ou só um começo de gripe. Talvez fosse melhor mesmo tomar um banho, ela insistiu, e depois me enfiar em baixo das cobertas, sugeria. Ela concordou. “Vai lá que eu vou pegar uma outra roupa pra você”, ela quis ser amável. Insiste que não se preocupasse, que seria melhor eu por a mesma camisa, pra me manter aquecido. Ela disse “Você que sabe” e foi preparar um chá no fogão.

Entrei no chuveiro e liguei a água, deixando que caísse ruidosa sobre a minha cabeça, tentando esquecer do mundo e pensar numa solução. Só ouvia o som da água caindo na cabeça e escorrendo pelos ouvidos, pelo rosto. Só dei por mim quando ouvi o som da porta do box se abrindo e Beth entrando no chuveiro comigo. Nu. Desprotegido. À mostra. Ela se aproximou de mim, beijou o meu rosto, o meu pescoço, como se nada lá tivesse, e desceu devagar. “Sei de uma coisa que vai te fazer melhorar rapidinho”, ela disse.

Quando saí do banho, mal podia me olhar no espelho. Vergonha de mim mesmo. E ela tinha me aceitado de volta. Passei a mão pelo espelho embaçado para ver os meus olhos me recriminando e o meu pescoço sem marcas. Beth passou por trás de mim, enrolada em uma toalha. Me beijou a nuca e disse, “vem logo tomar o chá pra não esfriar”.

Fil(ler)osofia da Mancha

- São manchas!

- Eu diria que são pintas.

- Claro que não. São manchas e pronto!

- Defina mancha.

- Como assim?

- Se você acha que pode reconhecer manchas, deve saber do que está falando. Defina mancha.

- Ora, uma mancha é... hum... uma parte com cor diferente do resto.

- E uma pinta?

- Ah, uma pinta é uma parte com cor dif... uh... Seu puto!

- Manchas e pintas são a mesma coisa então?

- Não!

- Então qual a diferença?

- Uma mancha é algo grande e sem forma definida. Uma pinta é algo pequeno e redondo.

- Bem, me parecem pintas, então.

- Não parecem n... Ahnnnn... Ah, deixa eu ver o dicionário!

- Esteja à vontade.

- "Mancha: Laivo, mácula, nódoa".

- E pinta?

- Hum...

- E pinta?

- "Pequena mancha; nódoa; sarda".

- São pintas, então.

- Ah, está aqui no dicionário. É tudo a mesma coisa.

- Não, não é. Há uma diferença. É por isso que são palavras diferentes. Conceitos diferentes.

- Palavras diferentes podem significar a mesma coisa.

- Sim, podem. Mas geralmente significam coisas diferentes. Por isso é bom usar a palavra certa.

- Uma zebra, então, tem listras ou faixas?

- Veja no seu dicionário de novo.

- "Listra: Risca num tecido, de cor diferente da deste. Risca. Riscas que caracterizam o pêlo de certos animais". Só pode ser esse. Só faltou desenhar a zebra.

- Olhe o outro verbete antes de concluir isso.

- "Faixa: Tira de pano para cingir a cintura. Atadura, ligadura. Qualquer coisa em forma de tira". Como as zebras não usam atadura, cinta liga nem nada na cintura, a listra é campeã!

- Não tão fácil. Qual a forma das listras da zebra?

- Bem, elas são compridas e finas.

- E qual a definição de tira?

- Tira é um policial que...

- Sim, sim, e faixa é um brother. No sentido em que estamos usando, é óbvio.

- Ok, vejamos... Droga... Dentre outros significados: "Tira: Listra".

- Se uma faixa é qualquer coisa em forma de tira, e uma tira é uma listra, uma faixa pode ser o mesmo que uma listra.

- Então uma mancha pode ser o mesmo que uma pinta.

- Poder, pode. Mas, no nosso caso, é?

- Se a diferença entre mancha e pinta é o tamanho... Tamanho é algo relativo. Uma pinta para mim pode ser uma mancha para uma pulga.

- Mas quem está analisando é você ou a pulga?

- ...

- Para você, então, deve ser uma pinta. E não uma mancha.

- Mas... mas... pinta é tão feio...

- Bochechar é uma palavra horrível. Nem por isso nós glorificamos o enxaguante bucal antes de dormir.

- Pinta lembra pinto.

- E mancha lembra macho, grande coisa.

- Não lembra não, vocês está forçando a barra.

- Você também. Pinta não lembra pinto. A fêmea do pinto é a perereca.

- Bem, sejam pintas, manchas, laivos ou nódoas, ele não parece muito interessado. Acabou de deitar e está lambendo as bolas.

- O interesse está na mente de quem analisa, e não de quem é analisado. O universo caga e anda para a análise, mas para nós ela é essencial.

- Com certeza... E, pensando bem... Elas não são tão redondas...

- Mais para ovais, eu diria.

- Serão bolas ou ovos?

- Pegue o dicionário.

Terça-feira, 16 de Junho de 2009

Comparações

A trezentos metros do solo a cidade parece uma maquete. Constatação simples e fácil de ser verificada, mas era só o que ele conseguia pensar quando o avião decolou. Na altitude do voo as nuvens parecem algodão-doce. Meu deus, como seus pensamentos eram previsíveis. Ele se esticava por cima do passageiro ao seu lado a fim de tentar fazer fotos do céu. O “vizinho”, constrangido e angustiado com a situação, ofereceu-se para fazer as fotos, mas recebeu uma recusa verbal. A seiscentos metros do solo, uma mancha de óleo no oceano parece chocolate meio-amargo. Por essa formulação ninguém esperava, nem ele. A quinhentos metros de altitude, o chacoalhar do avião lembra uma batedeira, o balançar das asas lembra uma bandeira chicoteando o ar e o desespero das pessoas lembra os filmes “lado B” da indústria cinematográfica. A trezendos metros de altitude a descompressão da cabine lembra a explosão de uma bomba caseira. A duzendos metros do mar as máscaras de oxigênio caindo sobre as cabeças dos passageiros lembram forcas. A dez metros de profundidade nada mais lembra, nada. Quem sabe uma hora dessas as manchas de óleo pareçam chocolate meio-amargo, de novo.

Mancha d'arte

Na melancolia cinematográfica de um sofá azul no meio de uma sala, com uma xícara apoiada entre o polegar e o dedo médio e um cigarro dependurado entre o médio e o indicador, estava ele observando sua recém acabada obra. O ambiente era até meio bucólico. O sofá era o único móvel do lugar, exceto por um armário quase imperceptível onde ficavam tintas e pincéis. O chão não tinha piso. Assim como tudo ali, era uma soma de artes. Um pouco de tinta, algumas asas de borboleta, bitucas de cigarro, farelos. As venezianas de madeira davam para o mato.

Á esquerda, ao lado da porta, se empilhavam os livros. Não gostava de estantes pra eles. Geralmente o faziam mal e não mereciam conforto algum. De Sartre a Nietzche. De Bukowski a Saramago. E era só. Quer dizer, poderia ser. Não fossem telas brancas nas paredes.

As pernas cruzadas eram mais do que uma insuportável mania: quase uma marca. Olhava, quieto e extremamente tranqüilo para mais uma de suas obras ainda não começadas. Sabia exatamente o que estaria ali nas próximas horas. Apenas sentia prazer na espera.

Foi descoberto por um amigo de um amigo, aquelas histórias clássicas. O cara era jornalista e um dia viu uma de suas telas por aí. O nome era Mancha IV.

Ele nunca foi de falar muito. Quando os poucos amigos reclamavam da sua solidão, ele nem se dava ao trabalho de argumentar. Sabia que só quem vive só sabe como é difícil verbalizar o prazer da sua própria companhia. Isso foi preponderante, também, para o mistério que surgia cada vez que uma nova obra era divulgada.

Os nomes nunca mudaram: Mancha. As inspirações também não: manchas. E era tudo o que se sabia. Sorria, apenas sorria, quando via algum multimilionário com um quadro seu na sala, junto com as crianças. “Se ele soubesse que foi feito de porra”. E sorria para a fotografia.

Algumas, claro, eram óbvias. Uma tela inteira de manchas de asas de borboleta. Outra com bitucas de cigarro manchadas pela mistura entre lábios e nicotina. Duas – repetidas por um montante em dinheiro capaz de sustentá-lo por meio ano – com as imbecis manchas em tecidos. Mas a maioria delas, impossível de identificar. Borrões de café, um vidro com marcas de corrosão da maresia, gotas de limão em uma tela branca, sangue em lençóis, milhares de marcas de patas molhadas com vinho.

Ria da idiotice das pessoas. A última obra, que rendeu um livro de tentativas de explicações e era só um balde de tinta jogado numa tela. E vivia assim, olhando em volta e pensando nas manchas que lhe trariam dinheiro para passar a vida sentado no sofá azul.

Jogou o cigarro no chão, levantou-se, pisou em cima. Sarcástico, olhou pra cima e viu, na tela pendurada, a obra principal de sua vida: a causa de sua morte. As manchas amarelas de fumaça estavam quase prontas. Pegou as latas de óleo que estavam ao chão. Era hora de ganhar a vida.

Quinta-feira, 11 de Junho de 2009

Tema - Mancha

Buenas.

O tema da próxima rodada é mancha. Vale contar a história de uma ou escrever qualquer coisa que a tenha como fator relevante da história.

Textos postados até o dia 16 de junho.

(Marina, no pc do Fábio)